
“Fazer um mundo” na diversidade de identidades, línguas e culturas
Coordination : Marta Donazzan et Alexandre Yaoh Cobbinah
Desde 1492, as Américas ocupam um lugar privilegiado na apreensão da alteridade, tal como foi pensada na Europa, inicialmente pelos filósofos e missionários, e depois pelos estudiosos e antropólogos. No Brasil, a presença de populações indígenas e de comunidades quilombolas originadas na escravidão, a diversidade linguística, a existência de clivagens ou diferenciações “raciais”, são parâmetros que, desde a independência, colocam desafios consideráveis para um Estado-nação que não se alinha em torno de uma narrativa nacional comum.
A reivindicação das singularidades brasileiras e latino-americanas se estendeu até as controvérsias internacionais com a contestação das políticas indigenistas, de reivindicações a favor do multiculturalismo e da ascensão de uma abordagem desconstrucionista, que rejeita as categorias de pensamento tal como foram moldadas na Europa ou na América do Norte. Desde a virada do século XXI, o crescimento das antropologias indígenas e das políticas públicas (como as “ações afirmativas” nas universidades brasileiras) é sem precedentes e tem desafiado consideravelmente as práticas e discursos, modificando os cânones metodológicos e éticos da construção dos saberes etnográficos e questionando as condições de produção do discurso antropológico em diálogo direto com a sociedade. Isso permite questionar, em retorno, as formas de praticar as ciências humanas e sociais na Europa, pensando as relações França-Brasil em um quadro mais amplo, em uma rede de influências, trocas e empréstimos que conecta outros elementos além das relações binárias entre esses dois países. Da mesma forma, o intenso diálogo entre África e Brasil, e mais amplamente com os países latino-americanos, na formação das culturas nacionais, exige a introdução de uma dimensão comparativa que hoje se mostra imprescindível para compreender as dinâmicas contemporâneas, destacando as relações Sul-Sul.
A questão da diversidade linguística está também no cerne da dificuldade de “fazer um mundo” respeitando a diversidade de identidades e culturas. Enquanto quase metade das 7.000 línguas faladas atualmente no mundo está ameaçada de extinção até 2100, muitas delas sendo orais e/ou pouco ou nada escritas, a perda de diversidade levanta a questão da preservação das línguas minoritárias e regionais, no Brasil, na França e no mundo. A documentação linguística coloca desafios metodológicos comuns à antropologia e a muitas outras disciplinas das ciências humanas e sociais; a linguística teórica, que se alimenta de dados de campo, também participa dessas preocupações e, ao mesmo tempo, permite enfrentar esse desafio com seu objeto de pesquisa, o estudo da linguagem. A linguística contemporânea se pergunta como conciliar a notável diversidade das línguas com a uniformidade das bases cognitivas e neurais que sustentam nossa capacidade de compreendê-las e falá-las como seres humanos. Enfrentar esse desafio exige compreender as fontes e os limites da diversidade. Seria interessante, nesse sentido, desenvolver trabalhos experimentais. Menos de 1% das línguas do mundo são testadas por protocolos experimentais, e a riqueza linguística do Brasil abre aqui um vasto campo de estudo. A variação linguística é ilimitada e aleatória, ou é limitada e constrangida e, portanto, previsível? Como articular invariantes tipológicas e universais linguísticos com a amplitude da variação observada? Como desvendar os diferentes fatores linguísticos e extralinguísticos envolvidos na diversificação das línguas? A própria existência de uma linguística geral depende, em grande medida, da identificação de tal núcleo de invariantes, mas essas questões dizem respeito, indiretamente, a muitas outras disciplinas, como a antropologia e as ciências cognitivas. Além disso, os conhecimentos derivados de estudos formais sobre a aquisição da linguagem nos fornecem ferramentas para compreender os processos de aprendizado de uma segunda língua, o que permite responder a um desafio educacional e cultural importante nos contextos de plurilinguismo que caracterizam, de forma crescente, as sociedades contemporâneas em ambos os lados do Atlântico.
A diversidade cultural e artística é composta por agentes, instituições e movimentos que se expressam em diferentes espaços geográficos, cruzando objetos, saberes, práticas e tradições. Em um mundo marcado pela digitalização, as imagens colocam essa diversidade em tensão, trazendo novos desafios para os arquivos e sua disseminação. Será interessante examinar a diversidade da linguagem em sua dimensão visual, levando em conta diferentes formatos, suportes e mídias ao longo da história, da pintura à gravura, da fotografia ao audiovisual, etc. As imagens possuem seus próprios meios de expressão, que não podem ser reduzidos ao simples papel de ilustração da linguagem verbal. Podemos mencionar uma cultura visual cruzada entre o Brasil e a França, uma “iconosfera” onde representações recíprocas se conectam e se confrontam.
Diante das reivindicações de reconhecimento e proteção da diversidade de identidades e culturas, especialmente indígenas ou minoritárias, o direito e as políticas públicas são convocados por todas essas questões, mas as políticas de preservação enfrentam inúmeros obstáculos.
Do ponto de vista metodológico, o contexto multidisciplinar de “Mundos em transição” oferecerá um terreno fértil para o desenvolvimento de projetos que associem, especialmente, antropologia, sociologia, história, geografia, filosofia, linguística e ciências cognitivas, mas também direito e ciência política. Os projetos de pesquisa que possam florescer dentro de “Mundos em transição” poderiam tentar ancorar a crítica pós-colonial, certamente importante, em um terreno histórico e contextual, com base em uma perspectiva situacional que, acreditamos, deve orientar a pesquisa no eixo 2. Em conexão com o eixo 1, esses projetos ajudarão a pensar a genealogia da formação das identidades contemporâneas e, mais geralmente, da globalização cultural, cujo espaço atlântico é, sem dúvida, um dos laboratórios mais interessantes, permitindo decifrar a circulação de saberes entre diferentes espaços culturais e linguísticos, mas também entre a comunidade acadêmica e o público não-especializado. A ideia de “fazer mundo” a partir da diversidade cultural e linguística exige levar em conta os trânsitos e circulações de práticas, agentes e saberes, o que coloca em estreita relação as pesquisas realizadas no eixo 2 com aquelas do eixo 1. Além disso, as pesquisas do eixo 2 devem confrontar a destruição de mundos e a maneira como as transições se realizam por meio da reapropriação de línguas, histórias e experiências, que muitas vezes adquirem um caráter político de reivindicação de identidades, territórios e direitos. A consideração do problema da destruição de mundos (línguas, culturas, etc.) também toca a questão ecológica e ambiental, que interessa às pesquisas do eixo 2, em diálogo com as do eixo 5.
Além disso, os projetos realizados incluirão uma forte dimensão de documentação, passada e presente, integrando novos modos de produção e interpretação de coleções de objetos e gravações sonoras e audiovisuais, especialmente, mas não exclusivamente, em contextos indígenas. Colaborações interessantes poderiam ser estabelecidas aqui, especialmente, mas não exclusivamente, entre linguistas e antropólogos, incluindo a criação de “estações de pesquisa” compartilhadas, concebidas como espaços para desenvolver projetos de documentação transdisciplinares, programas de formação em campo para jovens pesquisadores, bem como programas de educação e acesso às ferramentas de pesquisa que possam beneficiar plenamente as comunidades. Projetos colaborativos com museus poderiam surgir no âmbito de “Mundos em Transição“, especialmente em relação à relação entre os povos indígenas e as instituições de memória no Brasil e na França.
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