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Entrée dans l’Anthropocène[2], franchissement des « limites planétaires »[3], changements climatiques, transition énergétique vers la neutralité carbone et plus largement transition écologique, transition démographique, numérisation et développement de l’intelligence artificielle, recompositions géopolitiques, crise du multilatéralisme, montée des populismes, crise de la démocratie… notre monde, nos mondes, connaissent des bouleversements profonds et accélérés. Nos sociétés sont ainsi en transition vers un futur qui apparait comme empreint de grandes incertitudes. Elles connaissent des mutations plurielles, qui sont à la fois distinctes et produisent ensemble des effets les unes sur les autres, ce qui les rend complexes.

Figura 1 : representação gráfica de diferentes concepções e tipos de transição
A transição significa tanto o processo pelo qual se passa de um estado a outro quanto o período de tempo e as transformações que esse processo implica. Esse conceito foi mobilizado — às vezes para ser desconstruído — no campo dos estudos políticos (por exemplo, a transição do comunismo para o liberalismo na Europa Oriental), nas questões ambientais (transição para o desenvolvimento sustentável), energéticas (por meio do conceito de “transição energética”), demográficas, alimentares ou sociais (incluindo as de gênero). Os processos em curso em escala global raramente apresentam rupturas nítidas, mas sim evoluções graduais, o que torna sua análise mais complexa e a diferenciação entre situação inicial e final mais difícil. As transições implicam uma certa linearidade, mas também encontram temporalidades cíclicas. No contexto atual de mudanças globais e sistêmicas, os processos podem também conhecer acelerações muito bruscas, marcadas pela transição rápida de um estado a outro, por exemplo, em decorrência da transgressão de um ponto de inflexão ou bifurcação, tornando impossível qualquer retorno à situação anterior[4].
Além disso, algumas transições podem parecer impostas (como a mudança de um estado ecológico para outro em um território que se tornará mais seco ou desértico devido às mudanças climáticas), enquanto outras seriam o resultado de ações e políticas que têm como objetivo impulsioná-las (como a transição energética). Mas, na realidade, muitas vezes é difícil distinguir entre as causas “naturais” e as antrópicas de certas evoluções (como, por exemplo, as mudanças climáticas). Da mesma forma, seria ilusório acreditar que essas múltiplas e complexas transições podem ser totalmente “controladas”. No entanto, podemos supor que é possível orientá-las ou facilitá-las, tornando-as menos brutais e atenuando suas consequências negativas.
De fato, o conceito de transição, além de ter se tornado o novo horizonte das políticas públicas, oferece uma perspectiva relevante para questionar uma série de transformações do mundo contemporâneo, que são objetos de pesquisa fascinantes para as ciências humanas e sociais. Por um lado, ao contrário das teorias baseadas na noção de ponto de inflexão, a transição implica identificar estados intermediários entre duas situações e questionar as (ir)reversibilidades associadas a cada um. Além de certas linearidades ou temporalidades cíclicas, o conceito permite evidenciar idas e vindas, avanços, retrocessos e recomeços. Por outro lado, identificar transições permite fazer perguntas aparentemente triviais, mas que são, na verdade, reveladoras: onde elas começam, ou seja, qual é o estado inicial? Qual é sua estabilidade? Como o estado inicial é modificado e a que ritmo? Todos os aspectos passam por sua transição no mesmo ritmo? Como eles interagem? Como orientar ou tornar essas transições menos brutais?
Assim, os mundos contemporâneos estão em transição de inúmeras maneiras, e o Brasil, que se estabeleceu nas últimas décadas no centro da geopolítica mundial, está, nesse sentido, na vanguarda das transições plurais que afetam os mundos contemporâneos. As mudanças climáticas podem ser mais ou menos contidas por ações sobre as emissões de gases de efeito estufa, mas não serão interrompidas abruptamente. Portanto, será necessário enfrentar uma transição para um novo clima, cujos desafios são particularmente importantes localmente, especialmente em termos de evolução dos biomas. O contexto político e social também se modifica gradualmente, com a rápida transição demográfica que a população brasileira tem experimentado nos últimos trinta anos (o Brasil já possui 20% de sua população com mais de 60 anos, e em 2030 esse segmento será maior que o de menos de 15 anos) sendo um dos exemplos dessas transformações. Abordar essas mudanças sob a perspectiva das transições permite oferecer novos esclarecimentos e inovar teoricamente em cada disciplina das ciências sociais, que mobiliza o conceito de maneira diferente. Essa perspectiva das transições se mostra suficientemente integradora, permitindo o desenvolvimento de um verdadeiro projeto de pesquisa para o IRL. Portanto, será a proposta e o apoio a essa nova abordagem que este novo laboratório internacional em ciências humanas e sociais, “Mundos em Transição“, do CNRS e da Universidade de São Paulo, se dedicará. “Mundos em Transição” pretende ser um ponto de observação privilegiado das mutações em curso que devem ser descritas, analisadas e compreendidas para melhor iluminar as escolhas políticas e, mais amplamente, as decisões dos atores públicos e privados. Aspirando tornar as relações franco-brasileiras um catalisador das dinâmicas acadêmicas e sociais que buscam refletir sobre as transições dos mundos contemporâneos (ecológica, cultural, social, política, cidadã…).
Com colaborações tão antigas quanto sólidas e vibrantes, a cooperação franco-brasileira em ciências humanas e sociais poderá, assim, engajar-se em novas bases, favorecendo os trabalhos de campo dos pesquisadores franceses no Brasil, dos pesquisadores brasileiros na França, bem como análises comparativas. Uma parte das pesquisas realizadas no âmbito de “Mundos em Transição” terá o Brasil ou a relação Brasil/França (quando necessário, recontextualizada em um contexto mais amplo) como objeto. A colaboração entre equipes mistas CNRS-USP também criará sinergias e complementaridades, permitindo avançar em níveis mais teóricos, sem necessariamente ter apenas o Brasil ou a relação França/Brasil como objeto.
Promovendo a transposição de barreiras disciplinares e a interdisciplinaridade, favorecerá a rede de colegas das diferentes disciplinas das ciências humanas e sociais dos dois países em torno de uma agenda científica compartilhada. Isso permitirá fortalecer colaborações e intercâmbios (projetos conjuntos, seminários e colóquios, publicações, além de convites cruzados para aulas e seminários) e promoverá a jovem pesquisa (acolhimento de doutorandos e pós-doutorandos para estadias de mais ou menos longa duração, a co-orientação e a co-supervisão, a associação a projetos e operações de pesquisa). Esta rede poderá contar com os instrumentos de financiamento franceses e brasileiros (ANR, FAPESP, Cadeiras do Estado de São Paulo, CAPES, etc.), assim como com instrumentos europeus (bolsas Marie Curie, chamadas ERC, Horizonte 2020).
“Mundos em Transição” também tem como objetivo fazer surgir formas renovadas de relações entre ciência e sociedade, além de transferência e valorização das pesquisas científicas, bem como conferir maior visibilidade aos trabalhos das ciências humanas e sociais (exposições, humanidades digitais, etc.), em linha com uma política compartilhada pela USP e pelo CNRS de apoio à ciência aberta.
A análise dos mundos em transição será realizada no âmbito de cinco eixos estruturantes:
Alguns projetos surgirão, inevitavelmente, na interseção de vários eixos. Da mesma forma, projetos transversais serão conduzidos, especialmente com uma dimensão metodológica (por exemplo, sobre a divergência entre os dados disponíveis na França e no Brasil, e mais amplamente com base no método comparativo). Além disso, uma grande parte das pesquisas realizadas no IRL alimentará os debates epistemológicos envolvidos pelo trabalho em ciências humanas e sociais sobre os países e populações colonizadoras e colonizadas e seus legados contemporâneos.
[1] Esse projeto é o fruto de uma elaboração coletiva em 2023-2024, e serviu de base para a criação do IRL2034 Mundos em transição.
[2] O Antropoceno seria uma nova era geológica que sucede ao Holoceno, caracterizada pela marca da humanidade, que se tornou uma força geológica cujos impactos são o principal indicativo dessa nova era. C. Bonneuil, J.-B. Fressoz, L’évènement anthropocène. A Terra, a história e nós, Seuil, Paris, 2013, 320 p. ; Catherine Larrère, L’anthropocène : une époque pour les transitions ?, Presses Universitaires du Septentrion, Entretien avec Philippe Sabot, 2022, 70 p.
[3] J. Rockström, W. Steffen, K. Noone et al., “A safe operating space for humanity” (2009) Nature, 2009, vol. 461, pp. 472–475; J. Rockström et al., “Planetary boundaries: exploring the safe operating space for humanity”, Ecology and Society (2009) 14(2), p. 32.
[4] T. M. Lenton et al., “Climate tipping points — too risky to bet against,” (2019) Nature, pp. 592-595.